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    July 31

    Filhos

    Vinícius de Moraes


    Filhos... Filhos?
    Melhor não tê-los!
    Mas se não os temos
    Como sabê-lo?
    Se não os temos
    Que de consulta
    Quanto silêncio
    Como os queremos!
    Banho de mar
    Diz que é um porrete...
    Cônjuge voa
    Transpõe o espaço
    Engole água
    Fica salgada
    Se iodifica
    Depois, que boa
    Que morenaço
    Que a esposa fica!
    Resultado: filho.
    E então começa
    A aporrinhação:
    Cocô está branco
    Cocô está preto
    Bebe amoníaco
    Comeu botão.
    Filhos? Filhos
    Melhor não tê-los
    Noites de insônia
    Cãs prematuras
    Prantos convulsos
    Meu Deus, salvai-o!
    Filhos são o demo
    Melhor não tê-los...
    Mas se não os temos
    Como sabê-los?
    Como saber
    Que macieza
    Nos seus cabelos
    Que cheiro morno
    Na sua carne
    Que gosto doce
    Na sua boca!
    Chupam gilete
    Bebem shampoo
    Ateiam fogo
    No quarteirão
    Porém, que coisa
    Que coisa louca
    Que coisa linda
    Que os filhos são!


    July 30

    Gente

    Se vê por ai essa gente
    Que nem parece que é gente,
    Que parece sempre doente,
    E atrás disso tudo tanto se corre
    Que um dia, num descuido
    O cansaço vence o que resta
    De gente dentro da gente
    July 14

    Pedaços de Mim - Rafael Guilherme Maldonado

    Um pedaço de mim já ficou no tempo,
    quando deixei de ler um bom livro,
    quando não acreditei naquele amor,
    quando não aproveitei aquele instante para falar de amor,
    quando não abracei meu pai e nem beijei minha mãe
    .

    Um pedaço de mim se perdeu na curva,
    quando abandonei o meu sonho sem tentar,
    quando aceitei trabalhar onde não gostava,
    quando fiz o que não suportava,
    quando disse sim, quando queria dizer não,
    quando deixei o amor morrer antes de nascer,
    por medo de sofrer...

    Um pedaço de mim ficou parado,
    quando eu não quis fazer um novo percurso,
    quando me conformei com o velho,
    quando fiquei parado vendo o povo correr,
    quando votei em branco, se podia escolher,
    quando não apareci quando era esperado.

    A vida pede atitude em cada instante,
    e passa por cima de quem se cala, de quem aceita,
    de quem acredita que tudo está irremediavelmente perdido.

    A vida desacata quem não se aceita,
    humilha quem não se valoriza,
    ensina com amor os que amam sem medidas,
    ensina com dor, os que fogem das lições.

    Um pedaço de mim quer tudo,
    outro quer se esconder.
    Assim, cabe a mim, só a mim,
    dosar ansiedade e apatia,
    ter um tempo para criar e outro para executar,
    falar e ouvir,
    ensinar e aprender,
    caminhar e correr,
    amar e ser amado,
    falar baixo e gritar.
    ter um tempo para refletir...

    Só não vale cruzar os braços,
    só não vale não ser eu mesmo,
    só não vale esquecer:
    que nada é mais importante que eu

     

    July 02

    ORAÇÃO A MIM MESMO

     
    Que eu me permita
    olhar e escutar e sonhar mais.
    Falar menos.
    Chorar menos.
     
    Ver nos olhos de quem me vê
    a admiração que eles me têm
    e não a inveja que prepotentemente penso que seja.
    Escutar com meus ouvidos atentos
    e minha boca estática,
    as palavras que se fazem gestos
    e os gestos que se fazem palavras
     
    Permitir sempre
    escutar aquilo que eu não tenho
    me permitido escutar.
     
    Saber realizar
    os sonhos que nascem em mim
    e por mim
    e comigo morrem por eu não os saber sonhos.
     
    Então, que eu possa viver
    os sonhos possíveis
    e os impossíveis;
    aqueles que morrem
    e ressuscitam
    a cada novo fruto,
    a cada nova flor,
    a cada novo calor,
    a cada nova geada,
    a cada novo dia.
     
    Que eu possa sonhar o ar,
    sonhar o mar,
    sonhar o amar,
    sonhar o amalgamar.
     
    Que eu me permita o silêncio das formas,
    dos movimentos,
    do impossível,
    da imensidão de toda profundeza.
     
    Que eu possa substituir minhas palavras
    pelo toque,
    pelo sentir,
    pelo compreender,
    pelo segredo das coisas mais raras,
    pela oração mental
    (aquela que a alma cria e
    que só ela, alma, ouve
    e só ela, alma, responde).
     
    Que eu saiba dimensionar o calor,
    experimentar a forma,
    vislumbrar as curvas,
    desenhar as retas,
    e aprender o sabor da exuberância
    que se mostra
    nas pequenas manifestações
    da vida.
     
    Que eu saiba reproduzir na alma a imagem
    que entra pelos meus olhos
    fazendo-me parte suprema da natureza,
    criando-me
    e recriando-me a cada instante.
     
    Que eu possa chorar menos de tristeza
    e mais de contentamentos.
    Que meu choro não seja em vão,
    que em vão não sejam
    minhas dúvidas.
     
    Que eu saiba perder meus caminhos,
    mas saiba recuperar meus destinos
    com dignidade.
    Que eu não tenha medo de nada,
    principalmente de mim mesmo:
    - Que eu não tenha medo de meus medos!
     
    Que eu adormeça
    toda vez que for derramar lágrimas inúteis,
    e desperte com o coração cheio de esperanças.
     
    Que eu faça de mim um homem sereno
    dentro de minha própria turbulência,
    sábio dentro de meus limites
    pequenos e inexatos,
    humilde diante de minhas grandezas
    tolas e ingênuas
    (que eu me mostre o quanto são pequenas
    minhas grandezas
    e o quanto é valiosa a minha pequenez).
     
    Que eu me permita ser mãe,
    ser pai,
    e, se for preciso,
    ser órfão.
     
    Permita-me eu ensinar o pouco que sei
    e aprender o muito que não sei,
    traduzir o que os mestres ensinaram
    e compreender a alegria
    com que os simples traduzem suas experiências;
    respeitar incondicionalmente
    o ser;
    o ser por si só,
    por mais nada que possa ter além de sua essência,
    auxiliar a solidão de quem chegou,
    render-me ao motivo de quem partiu
    e aceitar a saudade de quem ficou.
     
    Que eu possa amar
    e ser amado.
    Que eu possa amar mesmo sem ser amado,
    fazer gentilezas quando recebo carinhos;
    fazer carinhos mesmo quando não recebo
    gentilezas.
     
    Que
    eu jamais fique só,
    mesmo quando
    eu me queira só.
     
    Amém.
    Oswaldo Antônio Begiato
    Publicado no Recanto das Letras em 04/06/2008
    June 27

    Poesia feita pelo amigo Rubens

    S

    erá que um dia ........

    E

    u consiga ..........

    L

    evar essa ......

    M

    ulher, para ir dançar ......

    A

    vec ....”eu” ??????

     

     

     

     

    L

    inda

    E

    xtrovertida

    I

    nteligente

    T

    udo de bom ......

    E

    ssa mulher tem

     

     

     

     

    S

    ó tem uma coisa que ,

    A

    inda não descobri ......

    N

    ão sabe dançar ??????

    T

    enho minhas dúvidas ......

    A

    cho que ela está fazendo “charminho”

    N

    ada contra isso ......

    June 26

    Fernando Pessoa

    Não sei quantas almas tenho.
    Cada momento mudei.
    Continuamente me estranho.
    Nunca me vi nem acabei.
    De tanto ser, só tenho alma.
    Quem tem alma não tem calma.
    Quem vê é só o que vê,
    Quem sente não é quem é,

    Atento ao que sou e vejo,
    Torno-me eles e não eu.
    Cada meu sonho ou desejo
    É do que nasce e não meu.
    Sou minha própria paisagem;
    Assisto à minha passagem,
    Diverso, móbil e só,
    Não sei sentir-me
    onde estou.

    Por isso, alheio, vou lendo
    Como páginas, meu ser.
    O que segue não prevendo,
    O que passou a esquecer.
    Noto à margem do que li
    O que julguei que senti.
    Releio e digo : "Fui eu ?"
    Deus sabe, porque o escreveu